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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
A recente notícia da descoberta de uma fechadura é mote para reflexões sobre a dramática situação do Inepac. Do desalojamento ao anacronismo de práticas, vislumbramos as estratégias de dissolução de um órgão de preservação e sua memória institucional.

how to quote

GONÇALVES, Cristiane. O buraco da fechadura. Sobre o desmonte do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 229.01, Vitruvius, ago. 2019 <https://wvyw.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.229/7438>.



A recente publicação em que se noticia a descoberta da fechadura do quarto de D. Maria I parece constituir um momento oportuno para algumas reflexões. Afinal, se girarmos a chave que abre esta porta imaginada, que segredos de alcova nos serão revelados? O que poderia ser o desnudamento de uma cena-romantizada-da-rainha-louca-que-resolveu-se-abrigar-em-um-convento teria força para se concretizar? Ou acabaremos nos deparando com a pequenez da abertura – um simples buraco de fechadura –, que nos oblitera a visão do tamanho do rombo que temos presenciado ante nossos olhos: a dissolução “real” (perdoem o trocadilho!) do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, nosso Inepac.

Como num conto policial, as sequências fotográficas que permeiam a narrativa dão destaque à chapa de ferro dotada de um segredo. O abre-fecha-esconde-revela evoca a materialidade da peça como prova irrefutável dos fatos “históricos”. Em uma espécie de fetiche do objeto, a ação lembra práticas superadas de antiquariato que remontam aos primeiros momentos da preservação, conectando, há mais de duzentos anos, as personagens da trama: a figura resgatada da monarca e as parcerias que, hoje, permitiram a localização da fechadura. As luvas brancas da fotografia, envolvendo a já enferrujada matéria, querem conferir à iniciativa uma aura de cientificidade contemporânea e imaculada. Resguardariam o ferro do contato com as mãos ou vice-versa? Mais um zoom e quase nos é permitido aferir a espessura do metal e as camadas de poeira e fuligem ali impregnadas.

Fechadura do quarto de Dona Maria é recuperada por funcionário da Secec
Foto divulgação / Gui Maia [Website Secec-Rio]

O estranho paradoxo entre imagem e texto poderia ser combatido com o rigor científico de uma acurada contextualização histórica e técnica, respaldada por pesquisadores reconhecidos em suas áreas de atuação e pelo uso de tecnologias de alta precisão. No entanto, ao invés de se atribuir ao achado sua verdadeira escala, do tamanho de sua representação simbólica e de sua importância no século 21, cede-se lugar à instantaneidade da notícia – pólvora a ser rapidamente consumida no universo voraz e superficial das redes sociais. Ao se omitirem detalhes de um possível percurso investigativo, nega-se, ao público e aos especialistas, acesso às provas documentais que ligam a concretude da peça à imaterialidade do fato histórico em si; fecham-se canais importantes de conexão e de produção de novas interpretações historiográficas, e abrem-se, de outro lado, largas frestas para especulações fantasiosas. Em resumo, o que vemos é o efeito contrário à pretensa cientificidade e cuidado extremado anunciado pelas imagens.

Mais adaptados à condição de pouca luminosidade da alcova, percebemos fios soltos da trama detetivesca. Não por acaso, a notícia em questão não cita que o Convento do Carmo, cuja restauração se encontra em andamento, reservava até poucos dias atrás parte de suas instalações para abrigar a sede do Inepac. O desalojamento do Instituto ocorreu sem conhecimento da arquiteta que, religiosamente, realizava o acompanhamento da obra e que acabou por solicitar o desligamento de suas funções por não concordar com o cenário que já então se tornava claro. Sem diretores nos Departamentos de Pesquisa e Documentação – DPD e do Patrimônio Cultural e Natural – DPCN, o Instituto já contabiliza dez funcionários desligados de seus quadros técnicos, entre maio e julho deste ano. O gigante esforço de desconstrução da história do órgão, por meio do desmantelamento de seu espaço físico e de suas figuras dirigentes e alguns de seus mais experientes técnicos, elos indissociáveis da consolidada memória institucional, é o duro contraponto do conto da fechadura. Resta-nos a palavra e a voz. E isso não é pouco.

Bancada com ferramentas, restauro do Convento do Carmo, Rio de Janeiro
Foto Cristiane Gonçalves

nota

NE - Publicação original: GONÇALVES, Cristiane Souza. O buraco da fechadura. Diário do Rio, Rio de Janeiro, 31 jul. 2019 <https://diariodorio.com/o-buraco-da-fechadura/>.

sobre a autora

Cristiane Souza Gonçalves é arquiteta (UFES, 1996), especialista em patrimônio arquitetônico (PUC-Campinas, 1998), mestre e doutora em teoria e história da arquitetura (FAU USP, 2004, 2010), pós-doutoranda em História (Unifesp). É membro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios – Icomos Brasil. É autora dos livros Restauração arquitetônica – a experiência do Sphan em São Paulo, 1937-1975 (Annablume) e Experimentações em Diamantina: a prática do Iphan em uma cidade tombada” (Editora Unifesp).

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